sábado, janeiro 26, 2008

A Carta

Eram quase horas de jantar, mais ou menos meia noite e meia hora, de mais uma segunda-feira mais ou menos atarefada. Estava eu de volta da minha correspondência de responsabilidade, de chupa-chups nos queixos, quando me deparo com uma missiva de remetente incógnito que, não fosse o grosso carimbo vermelho "urgente e ultra secreto", certamente me teria passado despercebida. Faço o meu olhar de Maxwell Smart mas não consigo deixar de me perguntar: "quem será o estúpido que põe um carimbo deste temanho numa mensagem secreta?".
Não vou negar que aprecio o mistério, e que toda esta situação me causava uma espécie de ansiedade curiosa, mas só depois de acalmar pude verdadeiramente apreciar o momento. Pensei: "Vou até ao terraço fumar um cigarro esperto e questionar-me sobre a origem de tão estranha comunicação", e assim fiz.
Comecei por examinar o envelope, era um daqueles que já não se usam, mais estreitos do que a maioria, perfeitos para uma folha A4 dobrada em A, digo, em quatro. "Que estranho" - pensei, mas daqui não tirei nenhuma conclusão. De seguida analisei a caligrafia... Times New Roman 15 ou 16 também não me sugere nada de especial. Nem, tão pouco, o facto de o código postal não ter os três dígitos que ganhou recentemente me poderia revelar nada mais acerca do seu remetente. Poderia, claramente, ser uma maneira de enevoar ainda mais a sua identidade, já que, se por um lado bases de dados com moradas não faltam por aí, por outro poderia ser alguma entidade recente a ocultar deliberadamente os três dígitos para gerar ainda mais mistério em torno de toda esta insólita situação. "Bom" - disse de mim para comigo - "vou inspeccionar o selo". Trinta cêntimos seria justo, mas neste caso nem isso. Apenas um carimbo que mais nada vinha acrescentar: Estação dos Correios de Celas. Como não percebo absolutamente nada disso, nem sequer faço ideia se o carimbo é da estação de origem ou de destino. "Isto é que está aqui uma casa bem arumada..." É claro que desistir nunca me passou pela cabeça e foi então que me lembrei de cheirar o envelope. Papel... Interessante... Olho à volta à procura da 99 mas ocorreu-me que também não sou o 86. E é nsta altura que começo a pensar que, se calhar vou mesmo ter que abrir o estupor da carta "queres ver?!?" Olhei à transparencia para ver de que lado deveria rasgar, mas a luz da lua não tinha intensidade suficiente para me permitir esta apreciação. Pensei em beber uma "jola" mas o frigorífico estava longe também não me apetecia assim tanto quanto isso. Bati o envelope como quem bate o tabaco devagarinho e voltei: "Será que é da minha prima Susana da Pedreira?" Naaa, a Susana agora até está para Lisboa. Para além do mais ela nunca me escreveu carta nenhuma, quanto mais "ultra screto"... Sei que teve direito a foguetes quando se formou, nem quero pensar o que vai ser quando me acontecer o mesmo a mim. "Mas se não foi a Susana, quem diabo terá sido?" - perguntei-me franzindo o sobrolho mais ainda -"Enfim..."
Abrindo a carta todo o mistério se desfez e desdobrando o desdobravel a intriga veio à luz. Ao que parece, a Madame Policarpa queria que lhe eu enviasse qualquer coisa, para fazer lá umas mézinhas que diz que dá saúde e dinheiro e mais não se do quê... Parece que Sr. Antunes que tinha problemas e que lhe passou a dor de corno e que a D. Jacinta já não lhe doi o artelho. Mas segundo percebi também, o Ti António caiu-lhe a piroca e o Dr. Bernardes passou-lhe uma ambulância por cima. Agora, o desgraçado do Zé Rasgado, que diz que lhe saiu no milhões, e eu que até já lhe pagei umas taças, e o filha da mãe nem água vai... Ai um gajo coiso e depois fica assim?!? E eu "Espera aí ó Madame que eu já te mando lá o não sei quê..." - "Tá bem, tá... Põe-te esperto ó Malaquias."
E foi assim.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Ai vamos que vamos ao cacho

Aqui há dias comi um cacho. Não era um cacho qualquer, era um cacho de uvas vermelhinhas cor de tinto, um cacho esplendoroso e reluzente. De que casta já não sei, mas em verdade vos digo que pouco me rala também. Peguei no cacho e pensei: "Ora aqui está um cacho valente como os não acho. Este cacho, digo-te eu, sobreviveu à vindima e ainda chegou ao natal, imponente e imperial. Por falar nisso já bebia mais um fino ou sete..."
Virei-me para o cacho e disse-lhe:
- Ai cacho cachinho, vou-te comer e é num instantinho. - ao mesmo tempo que me preparo para lhe arrancar uma sumarenta uva.
- Ei ei ei ei ei!!! - Respondeu o cacho. - Tão, paeh?!? - e eu:
- Olha, um cacho que fala... Sim senhores, este cacho não para de me surpreender!
- Estás a falar pra quem, paeh?
- Ninguém em especial, é que às vezes posso-me lembrar de publicar isto num "blog" e assim dá-me mais jeito para redigir e não sei quê...
- Pois pois, estás é todo queimadinho dessa mona, não te ponhas a pau que qualquer dia começas a ouvir cachos a falar.
- Ouve lá, ó cacho, não achas que esse aviso vem um bocado tarde? E o mais engraçado é que, sendo da tua parte, nunca poderia vir a tempo.
- Já sei que tens a mania da incorruptibilidade do tempo e do espaço, mas também já devias saber que os ovos põem galinhas.
- Não é uma questão de mania, mas também não vou discutir o agnosticismo de S. Tomé com um cacho. O que é que tu me queres afinal? Estou a engolir saliva em seco...
- Saliva em seco?!? Estás bonito, estás... E ainda por cima estás com vontade de me comer, não achas isso um bocado boyola?
- Cacho cachinho, a última coisa que me passaria pela cabeça era esfregar a genitália em tão suculentas uvas. Quando eu falo em comer refiro-me ao acto de me alimentar introduzindo-te pela extremidade superior do meu tubo digestivo.
- Quer-se dizer então que partlhas da opinião do Bill Clinton?
- Seja o que for que estejas a querer dizer com isso, meu querido cacho, lamento informar-te que não me vais conseguir demover dos meus intentos.
- Querido, diz o gajo, e eu que o ature... Tu hoje estás possesso.
- Bom, já acabaste? Posso começar a arrancar os teus bagos e a desgusta-los despudoradamente?
- Mas como?!? Assim sem mais nem menos? Não tens medo de me comer assim com caroço e tudo? Não tens medo que te nasça uma parreira no cu?
- Uma parreira nunca será um pinheiro, não é verdade? E confia em mim quando te digo que tenho ingerido bastantes pinhões. Seja de que maneira for, posso sempre cuspir fora as tuas graínhas.
- Uma badalhoca, é o que tu és! Tu e elas todas... Não sabem apreciar a verdadeira essência do cacho.
- Seja como quiseres, se engolir tudo estou seguro de que não me fará mal. Posso sempre ir podando qualquer parreira que me nasça no cu. - E é nesta altura que faço tenção de arrancar o primeiro bago do magnífico cacho. "Que aspecto delicioso que tem!", penso salivante quando sou novamente interrompido pela minha ligeira refeição:
- Olha lá, mas estás-te a esquecer de uma coisa muito importante.
- Conta lá... - returco paciente.
- Esqueces-te que também tu és um cacho. Como é que vais viver com a consciencia de canibal?
- Em primeiro lugar e citando um qualquer "stargazer" não vou negar à partida uma ciência que desconheço. E em segundo lugar eu sou um cacho mas não sou desses.
- Pois pois. Isso é o que dizem todos. Ou se calhar pensas que que me vais comer de uma maneira muito original...
- Não é que a originalidade neste caso me preocupe e não te posso garantir que te vá comer da melhor maneira. Mas uma coisa é certa, vou-te comer à minha maneira que, como qualquer outra maneira, tem peculiaridades diferentes das maneiras dos demais.
- E desde quando é que te tornaste especialista em comer cachos? Ou será que nem sequer te importas comigo e com os meus sentimentos?
- Bem, não sou doutorado em cachologia mas já tenho comido alguns. Será uma arte assim tão complicada? De qualquer maneira tu não passas de um cacho... Ficarás por ventura ferido no teu orgulho de cacho por te arrancar um bago à má fila? Ou será que a tua casta que desconheço tem algum brasão que não permita que sejas abocanhado por uma qualquer cremalheira? Nota bem que tu és um cacho... Tens um pincaro, um bagaço e uvas como qualquer outro cacho. Queres fazer o quê, negar a tua existência cachal? Um cacho nasce, cresce e vai para o lagar ou para a fruteira. E seja como for, mais tarde ou mais cedo vai parar ao bandulho. Está bem que chegaste ao natal em esplendor, mas se ninguém te comer vais apodrecer impreterivelmente. Ou então vais secar e mirrar desmembrado e feito em passas. Quererás por destino este triste final? Tu, magnífico e sumarento cacho... Estás aí? Que me dizes então? Não respondes? - E como não obtivesse resposta lá acabei por comer o cacho.
Em verdade vos assevero que, posta esta luta, o cacho acabou por me não saber tão bem como o eu teria imaginado. E quase que posso jurar que o ouvia chorar em surdina enquanto o comia. Que mais poderei dizer? Coisas de cachos...

terça-feira, janeiro 10, 2006

Lei de Rui

Lei de Rui: Um cu nunca é demasiadamente grande, deve é obedecer a uma regra objectiva de proporcionalidade.