A Carta
Eram quase horas de jantar, mais ou menos meia noite e meia hora, de mais uma segunda-feira mais ou menos atarefada. Estava eu de volta da minha correspondência de responsabilidade, de chupa-chups nos queixos, quando me deparo com uma missiva de remetente incógnito que, não fosse o grosso carimbo vermelho "urgente e ultra secreto", certamente me teria passado despercebida. Faço o meu olhar de Maxwell Smart mas não consigo deixar de me perguntar: "quem será o estúpido que põe um carimbo deste temanho numa mensagem secreta?".
Não vou negar que aprecio o mistério, e que toda esta situação me causava uma espécie de ansiedade curiosa, mas só depois de acalmar pude verdadeiramente apreciar o momento. Pensei: "Vou até ao terraço fumar um cigarro esperto e questionar-me sobre a origem de tão estranha comunicação", e assim fiz.
Comecei por examinar o envelope, era um daqueles que já não se usam, mais estreitos do que a maioria, perfeitos para uma folha A4 dobrada em A, digo, em quatro. "Que estranho" - pensei, mas daqui não tirei nenhuma conclusão. De seguida analisei a caligrafia... Times New Roman 15 ou 16 também não me sugere nada de especial. Nem, tão pouco, o facto de o código postal não ter os três dígitos que ganhou recentemente me poderia revelar nada mais acerca do seu remetente. Poderia, claramente, ser uma maneira de enevoar ainda mais a sua identidade, já que, se por um lado bases de dados com moradas não faltam por aí, por outro poderia ser alguma entidade recente a ocultar deliberadamente os três dígitos para gerar ainda mais mistério em torno de toda esta insólita situação. "Bom" - disse de mim para comigo - "vou inspeccionar o selo". Trinta cêntimos seria justo, mas neste caso nem isso. Apenas um carimbo que mais nada vinha acrescentar: Estação dos Correios de Celas. Como não percebo absolutamente nada disso, nem sequer faço ideia se o carimbo é da estação de origem ou de destino. "Isto é que está aqui uma casa bem arumada..." É claro que desistir nunca me passou pela cabeça e foi então que me lembrei de cheirar o envelope. Papel... Interessante... Olho à volta à procura da 99 mas ocorreu-me que também não sou o 86. E é nsta altura que começo a pensar que, se calhar vou mesmo ter que abrir o estupor da carta "queres ver?!?" Olhei à transparencia para ver de que lado deveria rasgar, mas a luz da lua não tinha intensidade suficiente para me permitir esta apreciação. Pensei em beber uma "jola" mas o frigorífico estava longe também não me apetecia assim tanto quanto isso. Bati o envelope como quem bate o tabaco devagarinho e voltei: "Será que é da minha prima Susana da Pedreira?" Naaa, a Susana agora até está para Lisboa. Para além do mais ela nunca me escreveu carta nenhuma, quanto mais "ultra screto"... Sei que teve direito a foguetes quando se formou, nem quero pensar o que vai ser quando me acontecer o mesmo a mim. "Mas se não foi a Susana, quem diabo terá sido?" - perguntei-me franzindo o sobrolho mais ainda -"Enfim..."
Abrindo a carta todo o mistério se desfez e desdobrando o desdobravel a intriga veio à luz. Ao que parece, a Madame Policarpa queria que lhe eu enviasse qualquer coisa, para fazer lá umas mézinhas que diz que dá saúde e dinheiro e mais não se do quê... Parece que Sr. Antunes que tinha problemas e que lhe passou a dor de corno e que a D. Jacinta já não lhe doi o artelho. Mas segundo percebi também, o Ti António caiu-lhe a piroca e o Dr. Bernardes passou-lhe uma ambulância por cima. Agora, o desgraçado do Zé Rasgado, que diz que lhe saiu no milhões, e eu que até já lhe pagei umas taças, e o filha da mãe nem água vai... Ai um gajo coiso e depois fica assim?!? E eu "Espera aí ó Madame que eu já te mando lá o não sei quê..." - "Tá bem, tá... Põe-te esperto ó Malaquias."
E foi assim.
Não vou negar que aprecio o mistério, e que toda esta situação me causava uma espécie de ansiedade curiosa, mas só depois de acalmar pude verdadeiramente apreciar o momento. Pensei: "Vou até ao terraço fumar um cigarro esperto e questionar-me sobre a origem de tão estranha comunicação", e assim fiz.
Comecei por examinar o envelope, era um daqueles que já não se usam, mais estreitos do que a maioria, perfeitos para uma folha A4 dobrada em A, digo, em quatro. "Que estranho" - pensei, mas daqui não tirei nenhuma conclusão. De seguida analisei a caligrafia... Times New Roman 15 ou 16 também não me sugere nada de especial. Nem, tão pouco, o facto de o código postal não ter os três dígitos que ganhou recentemente me poderia revelar nada mais acerca do seu remetente. Poderia, claramente, ser uma maneira de enevoar ainda mais a sua identidade, já que, se por um lado bases de dados com moradas não faltam por aí, por outro poderia ser alguma entidade recente a ocultar deliberadamente os três dígitos para gerar ainda mais mistério em torno de toda esta insólita situação. "Bom" - disse de mim para comigo - "vou inspeccionar o selo". Trinta cêntimos seria justo, mas neste caso nem isso. Apenas um carimbo que mais nada vinha acrescentar: Estação dos Correios de Celas. Como não percebo absolutamente nada disso, nem sequer faço ideia se o carimbo é da estação de origem ou de destino. "Isto é que está aqui uma casa bem arumada..." É claro que desistir nunca me passou pela cabeça e foi então que me lembrei de cheirar o envelope. Papel... Interessante... Olho à volta à procura da 99 mas ocorreu-me que também não sou o 86. E é nsta altura que começo a pensar que, se calhar vou mesmo ter que abrir o estupor da carta "queres ver?!?" Olhei à transparencia para ver de que lado deveria rasgar, mas a luz da lua não tinha intensidade suficiente para me permitir esta apreciação. Pensei em beber uma "jola" mas o frigorífico estava longe também não me apetecia assim tanto quanto isso. Bati o envelope como quem bate o tabaco devagarinho e voltei: "Será que é da minha prima Susana da Pedreira?" Naaa, a Susana agora até está para Lisboa. Para além do mais ela nunca me escreveu carta nenhuma, quanto mais "ultra screto"... Sei que teve direito a foguetes quando se formou, nem quero pensar o que vai ser quando me acontecer o mesmo a mim. "Mas se não foi a Susana, quem diabo terá sido?" - perguntei-me franzindo o sobrolho mais ainda -"Enfim..."
Abrindo a carta todo o mistério se desfez e desdobrando o desdobravel a intriga veio à luz. Ao que parece, a Madame Policarpa queria que lhe eu enviasse qualquer coisa, para fazer lá umas mézinhas que diz que dá saúde e dinheiro e mais não se do quê... Parece que Sr. Antunes que tinha problemas e que lhe passou a dor de corno e que a D. Jacinta já não lhe doi o artelho. Mas segundo percebi também, o Ti António caiu-lhe a piroca e o Dr. Bernardes passou-lhe uma ambulância por cima. Agora, o desgraçado do Zé Rasgado, que diz que lhe saiu no milhões, e eu que até já lhe pagei umas taças, e o filha da mãe nem água vai... Ai um gajo coiso e depois fica assim?!? E eu "Espera aí ó Madame que eu já te mando lá o não sei quê..." - "Tá bem, tá... Põe-te esperto ó Malaquias."
E foi assim.
